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06 novembro 2008

Um Novembro em cheio. Novidades dos Olivais, de Almada e não só...


chegou hoje à caixa de correio (na verdade à caixa de e-mail) uma mensagem cheia de novidades dos nossos amigos The Poppers. a palavra ao Rai (Your Claustrophobic Garage Popper...)

«Bom… depois da nossa estadia no céu, também conhecido como MARVÃO, começámos a produzir o disco com mais de 20 musicas, nesta fase temos 13. As musicas estão a soar muito bem, desde o mais agressivo que já fizemos até ao mais espacial (não sei bem porque escolhi esta ultima palavra, mas soa pomposo). Estou confiante com o que estamos a fazer. Muito. Muito. Em breve será vosso.

Quem está a produzir o Disco é o NUNO RAFAEL, conceituado produtor nacional (Humanos, Sérgio Godinho).

O disco chamar-se-á “BEAT BOOM BLUES” e devem fazer parte temas como His Army - Bohemian Discipline - In this City - God is on the news, but it ain’t on my side - Jimmy Cooper’s Hymn (Drynamil) - Queens Kinky Song - A bit of a heartbeat - Bull’s Eye Gang - “Dogdom” Blues entre outras.

Devemos fazer uma mão cheia de datas antes de lançarmos o disco.»

eu já ouvi algumas coisas e posso adiantar que vem aí um belo disco Popperiano.

já de Almada, via two tone store, chega-nos a dica para Um Concerto Para o Fim De Semana. os Corsage, na Fábrica do Braço de Prata, em Lisboa no Sábado, dia 8, pelas 23 horas. serão apresentados alguns temas novos que farão parte do novo disco a editar em Janeiro de 2009.

quanto à familia scooterista, reune-se novamente no Europa já no dia 22. diz-nos o xavier:
«Depois do excelente arranque das festas mensais no passado mês de Outubro em que a pista em momento algum esteve parada partimos então para a próxima noite dançante. Além da selecção sonora a cargo do nosso Professor X temos de novo o Milkshake. Milkshake além de ser o maior expert de Lisboa e arredores em som dos sixties, também é parte da editora independente Groovie Records, editora exclusivamente de vinil. Além da parte sonora teremos a parte visual. Regressa o nosso video realizado por Bruno Canas, que não tem sido projectado no ecrã do Europa devido a problemas técnicos já resolvidos entretanto. E pela primeira vez teremos um VJ a animar ao vivo o ambiente mais groovie da cidade. Alatak já é um habitué de várias casas e festas de Lisboa e não só.»


mas não é só isto... o José Mourinho deixou-nos um roteiro para este Novembro no fórum mais moderno cá do burgo.

Sexta 14 - Jose M no L Gare (Rua da Rosa, 136)
Sabado 15 - Alberto Valle no Gasoiil (Rua da madalena 123)
Sabado 29 - Hot Pan Club no Gasoiil (Rua da Madalena 123)

como diz o Mourinho «só não se diverte quem não quer».


keep the faith
stay cool!

29 setembro 2008

Brian Jones, from O Modernista


Terceiro (e para já, último) capítulo da colaboração com o fanzine O Modernista, desta feita publicamos um artigo sobre Brian Jones.

Brian jones
O Rolling Stone original. O fundador da banda, fanático de R&B, multi-instrumentista, que só queria fazer a melhor banda à face da terra…e nunca sequer pensou em opôr-se aos Beatles…O mais mod dos Stones! Long Live Brian Jones e todos os discos dos Stones (de 63 a 66)!

Nascido no último dia de Fevereiro de 1942 (fosse ano bissexto e fazia anos de 4 em 4) em Cheltenham – arredores de Londres - filho de um engenheiro de aviação e duma professora de piano. Das duas irmãs uma morreu nova por doença, e dos ensinamentos que teve em casa, um deles foi que a irmã tinha sido levada para um sítio muito mau, e que ele se não se portasse bem havia de ir lá parar também…

Louro, sempre penteado, de cabelo cuidado, olhos verdes-acizentados…Jones nunca se coibiu de fazer trinta por uma linha na sua vida. Aos 16 tem um filho, aos 17 outro e por aí fora numa sucessão de descendentes que acaba aos 5, mas que também pouco interessa para aqui. Facto: Jones era apaixonado e devoto por tudo o que fazia, dedicado e obsessivo por tudo aquilo em que se envolvia…e é pelo legado da música que percebemos isso.

Aos 15 anos, Jones começa por tocar numa banda de skiffle na escola e um ano depois já toca saxofone num combo de jazz local…3 anos depois, é guitarrista de um conjunto de bandas de jazz em Cheltenham e reparte essa ocupação com uma série de trabalhos menores durante o dia, entre eles alguns para chatear os pais!

Em 1961, faz viagens de fim de semana regulares a Londres onde se envolve na cena blues local e se mistura com vários músicos, entre eles Paul Jones (mais tarde vocalista dos Manfred Mann), com quem ainda forma uma banda de ocasião, trampolim para outros voos.

Ao ver um concerto de blues eléctrico de Alexis Korner, a sua vida muda completamente. Primeiro por perceber o que quer fazer, depois por conhecer Korner pessoalmente. Ao visitar Korner em Londres, acaba por conhecer uma série de outros músicos, compra uma guitarra e dedica-se a tocar noite e dia até atingir o nível que quer. No início de 1962, Korner começa uma noite regular de R&B com a sua própria banda e Jones participa numa dessas noites com uma versão de “Dust My Broom” do seu herói Elmore James!

Entre a assistência estão Keith Richards e Mick Jagger. Impressionados como que vêem falam com Jones, que expõe o seu plano – fazer uma banda, mas nada de aberturas para outros! Vocalista: Paul Jones (desculpa lá Mick, não há lugar para ti!). Prosseguem caminhos separados por mais uns tempos....

Pelo meio, Brian recruta o baterista Stu Stewart através de anúncio no Jazz News e começam a ensaiar com Paul Jones. Mais tarde este sai e prosseguem com um outro cantor/tocador de harmónica, mas este também sai…é que ao que parece ninguém o aturava muito tempo! Diz a história que Jones era um ladrãozeco de cigarros, e que os donos dos pubs fartos da brincadeira não o queriam por perto.


Os Stones de Brian Jones
Stu convida Jagger, que aparece no ensaio acompanhado de Keith Richards e Dick Taylor. Os 3 encaixam na ideia de Jones e é aqui que nascem os Rolling Stones! A estreia ao vivo é no Marquee em 12 de Julho com Mick Avory (mais tarde dos Kinks) na bateria. Mas este foi uma solução de recurso…Brian queria o experiente Charlie Watts na bateria.

No Outono de 1962 e com Brian na liderança da banda os Stones fazem as suas primeiras gravações no estúdio de Curly Claiton. Seguem-se tempos de austeridade em que quase reclusos do seu apartamento de Chelsea, Jones e Richards tocam dia e noite até fazer bolhas, e é daí que resultam os arrebatadores riffs dos Stones, que fazem dos primeiros discos obras primas de R&B.

Em Novembro e Dezembro do mesmo ano, e num ambiente dominado pelos clubes de Jazz, com pouco espaço para a nova corrente de R&B britânico que começava transpirar por todos os lados, Jones, consegue uma residência permanente no Ealing Jazz Club, e vários concertos no Marquee, no Piccadilly e no Flamingo, em pubs e dancehalls nos arredores de Londres!

A abertura do Crawdaddy, o primeiro clube da nova geração, dirigido pelo jovem fã de blues Giorgio Gomelsky, é o ponto de viragem dos Stones! Um novo clube, com uma nova dinâmica, que cedo se há-de tornar num dos hot spots da nova Londres… a Swinging London!

Brian Jones tratava de tudo. Marcava concertos, divulgava a banda nos media, fazia as contas.
Tudo a correr bem….mas os Stones sem disco!
Brian Jones nos Stones
Assinam então um acordo com o promotor Andrew Loog Oldham em Maio de 1963… Jones sabia que Oldham havia de catapultar a carreira dos Stones rumo ao disco e ao que mais houvesse além disso, mas não esperava o que se seguiu...

Oldham faz dos Stones o oposto dos Beatles, secundariza o papel de Jones em detrimento de Jagger como líder e sex-symbol! Depois dá indicações precisas para que Mick e Keith escrevam as músicas, retirando a Jones a direcção artística da banda…e cria até intrigas para ostracisar Brian Jones dentro da banda. Mas era Brian o favorito do público. A prová-lo o tempo de antena na televisão e o correio de fãs. Jones defendia até à exaustão o espírito dos covers de R&B, que foram os primeiros hits da banda e congratula-se com o primeiro disco, nº. 1 no início de 1964… Depois vêm os sucessos da dupla Jagger/Richards, entendidas por Brian como comerciais… e acaba aqui o papel activo de Brian Jones nos Stones.

Desde então, Brian não mais é consultado na construção das músicas. As suas partes nas gravações eram cortadas, abafadas ou nem sequer faziam parte das misturas finais. Não mais aparece em entrevistas. O seu papel limita-se a dar côr e exotismo às músicas através das suas aptidões para tocar os mais variados instrumentos, mas a direcção musical dos Stones já não é definitivamente sua. Já não são os Rolling Stones, são outra coisa qualquer, que certamente passou pela apoderação de um conceito e diluição das referências originais!

Tudo isto e o correr dos anos fazem com que Jones vire as suas atenções para outras coisas, e direccione as suas aptidões musicais para outros géneros e outras pessoas…È figura de proa da psychedelia com Hendrix, tem as suas experiências marroquinas com os restantes Stones, e é aí que dá inicio a um projecto editado postumamente em 1972 chamado Brian Jones Presents the Pipes of Pan at Joujouka!

Jones fica nos Rolling Stones até 1966 (ano mítico e de viragem na cena mod inglesa…) e participa em todos os discos até então, dando o toque experimentalista aos discos e tocando os mais variados instrumentos (das marimbas às citaras). e nesse ano faz a última tour americana com os Stones.

Jones participou ainda nas gravações do Sgt. Peppers com os supostos arqui-rivais Beatles (Toma Oldham!). Apesar da música em questão “You know my name (look up the number)” não ter constado do alinhamento final do disco, pode no entanto ser encontrada no Past Masters Volume 2 ou na Antologia 2...ehem dos Beatles!

Brian Jones... A rolling stone
Depois, é uma espiral de má memória, com muitas drogas e desgostos amorosos à mistura. História triste, muito triste... como triste foi o assassinato artístico de Brian Jones por Oldham.

…E quase 3 anos depois de deixar os Stones...em 1969, Jones foi fazer companhia à irmã, numa história nunca clarificada e ainda hoje por explicar. Daí o mito em torno de Brian Jones.

Para nós terrenos e fãs de música, do “Rollling Stones” ao “Aftermath” é de ouvir tudo com atenção e descobrir onde é que anda o Brian Jones ...e insistir no “Rolling Stones” , não só porque é muita bom só por si, mas também porque é aquele em que Jones se reviu como artista e já agora, aquele em que os Rolling Stones foram mesmo Rolling Stones!

publicado originalmente n'O Modernista, por José Mourinho.

22 julho 2008

MARY QUANT, from O Modernista

Segundo capítulo da colaboração com o fanzine O Modernista, desta feita publicamos um artigo sobre Mary Quant.


Para sempre ligada à mini-saia, Mary Quant foi muito mais que isso! Foi um símbolo de libertação da mulher, social e profissionalmente. Uma história original dos 60’s, porque só podia acontecer nos 60’s.

Mary Quant era mulher e em meados da década de 50 isso não facilitava nada as coisas. A menos que algo que escapasse a todos os homens e que quebrasse uma tradição com cheiro a mofo daí viesse…e Quant tinha-o!

No optimismo vigente, jovens com empregos e algum dinheiro juntavam esforços com outros talentosos à espera duma oportunidade de se iniciarem nas suas próprias lides por conta e risco. Archie McNair era um desses jovens. Foi ele que em 1955 meteu as 8.000 libras necessárias para que Quant e o seu amigo Alex Plunket Greene, um fanático de jazz, encontrassem um espaço em King’s Road suficientemente grande para abrir os seus negócios. Quant ficou com o piso térreo e abriu a Bazaar! Plunket Greene ficou com a cave e abriu o clube de jazz com que sonhara.

Quando a Bazaar abriu, King’s Road era uma zona de padarias, mercearias, talhos e peixarias, 10 anos depois a zona seria uma referência da Swinging London, a par com Carnaby Street. Mercados diferentes, contudo! Adiante…

Nesses dias a montra da Bazaar eram pijamas e alguns chapéus que Quant havia desenhado. Os pijamas coloridos, amaricados para a mentalidade vigente, foram fotografados e mais tarde comprados por um americano que os queria imitar no EUA. Quant teve receio de que as suas criações mudassem de mão, mas encontrou nisso a inspiração para fazer novos modelos. Comprava tecidos estampados no Harrods e juntava-os de acordo com as suas concepções. A escolha ía para tecidos até então pouco associados a roupa de mulher…e isso só de si já lhe garantia inovação. Depois era trabalhar muito no seu quarto, acumulando stocks suficientes para que pudesse repor o que vendia no dia antes. Dizia ela que eram roupas para o seu modo de vida ou o de qualquer pessoa que vivesse em Chelsea - alí, paredes-meias com o Soho, zona boémia e portanto dada à absorção das novas tendências, mas volátil. Claro que para uma criativa como Quant isso era um desafio!

A loja crescia vertiginosamente de dia para dia. As razões estavam tanto no conceito da loja,
como nos modelos de Quant. Pois! Quant inventara a roupa que distinguia as raparigas das mulheres, com o garrido das cores era impossível resistir e não ir ver mais de perto, e não eram raros os rapazes que lá levavam as namoradas e as encorajavam a comprar. Isto não era possível antes. A juntar-se a isto, o clube de jazz na cave…onde Quant, Plunket Greene e os amigos se entretinham em conversas e copos, o que não raras vezes resultava em encerramentos tardios…por volta da meia noite...

O render do público à ideia fazia esgotar os stocks…A necessidade de os repor aliada à disposição de Quant e aos materiais disponíveis fazia com que a loja surpreendesse a cada dia que passava. A loja passou a ponto de referência nas deambulações das jovens raparigas de Chelsea…e as montras chegavam a mudar 2 e 3 vezes por dia. Apareciam então as mini-saias, os vestidos e fatos em cores vivas, polka dots e riscas completamente avessos à outrora venerada alta costura francesa, agora tida como retrógada.

Na cave, Plunket Greene faz do clube de jazz, um bistro francês. Chama-lhe Alexander’s e seria um dos primeiros restaurantes “trendy” de Londres. muita classe e sofisticação, a apelar aos clientes da loja no piso superior. Oh! Roupa e comida, claro que sim! Vamos embora...

Pela inovação que traziam a um tecido comercial antiquado, Quant e Greene eram vistos como degenerados. Mas a persistência e o crescente sucesso, fizeram com que todos se rendessem e lhes chamassem “uma pedrada no charco”.

Em 1963 Quant tem ainda um contributo decisivo nos cortes de cabelo. Ao convidar Vidal Sassoon para cabeleireiro num desfile das suas criações, e sabendo das suas inovadoras ideias, Quant sugere que Sassoon faça algo de novo para o desfile. Sassoon fica surpreendido com o pedido, mas mais fica quando Mary se põe nas suas mãos como cobaia e diz “Fazes-me a mim. Se correr bem fazemos o mesmo corte a todas!”. Nascia o bob haircut!

O tempo encarregar-se-ia de ver o negócio crescer e proliferar e em 1964, Quant liga o seu nome à indústria dos cosméticos e lança uma marca própria no mercado americano… em meados da década os lucros das suas empresas ascendem a 12 milhões de libras por ano!

OK! Em 9 anos, Quant abrira uma loja e modificara o visual feminino - a roupa, o cabelo, a cara - mas não é isso que a faz parar e por esta altura às mini-saias e aos vestidos juntar-se-iam as gabardines, os vestidos e os chapéus em PVC!

Para Quant a mulher com estilo era “sexy, bem disposta e arejada”. As suas roupas representavam isso. Vidal Sassoon, dizia que o atelier dela era a rua.
Em reconhecimento pelo seu contributo para a economia e projecção do Reino Unido no mundo… é agraciada pela Rainha...como os Beatles!


publicado originalmente n'O Modernista, por José Mourinho.

26 maio 2008

Brighton Beach, from O Modernista

"Margate, em 1964 foi o pior. As celas encheram. Só haviam 7 polícias em Margate e uma Black Maria (ndr: Ramona) – Mas haviam cerca de 4.000 mods e 500 rockers!" Phil Bradley, in "A Living Memory"

Páscoa de 1964. Entre Abril e Agosto… Mods vs Rockers… uma só guerra, várias batalhas! Capa de jornal, objecto de acompanhamento mediático nos dias e anos seguintes. Episódio de culto para todas as gerações posteriores, muito por mérito da ficção dos The Who em Quadrophenia.

Os primeiro confrontos, em Clacton, datam de 30 de Março, mas é em Maio que o fenómeno atinge o pique! Os relatos da época são unânimes quanto à escassez de meios policiais destacados para o local. Surpreendida pela quantidade de gente que duma assentada chegou para o fim-de-semana grande… os efectivos destacados não eram suficientes para tanta gente… Nos seguintes, já não foi bem assim… Que algo se passou naquela Páscoa de 64 não há dúvidas! Mas terá sido assim tão premeditado como se diz, ou tão eloquente como se faz crer... Agora que passam 44 anos sobre o episódio, e que se começa a falar de mods e cultura modernista por cá chegou a altura… Brighton: mito ou realidade? Guerra de rua ou sensacionalismo mediático? Investigou-se o assunto, e encontrou-se referências e depoimentos de intervenientes dos 2 lados, capas de jonais, fotos, etc...

Sobre os confrontos de Clacton, Richard Barnes apresenta o cenário como um Sábado à tarde fora da época balnear, curiosamente na Páscoa mais fria desde 1884! Como tal, e ainda que fosse um Bank Holiday, muito era o comércio sazonal que se encontrava fechado. Haviam os pubs e pouco mais, e mesmo estes fecharam a seguir ao almoço! A cidade estava cheia de gente e não haviam outras atracções que não a praia, o pontão, e no final deste, o Aquário. Resultado: filas a perder de vista!

Em 64, os mods eram já um fenómeno generalizado. Existiam grupos de mods - que para quem estivesse por dentro podiam ser identificados pelas cores dos fatos - e rivalidades entre eles… e havia muitos que preferiam trocar a escola gentleman pelos nervos à flor da pele.

Além disso, enquanto os mods eram eminentemente urbanos, os rockers preferiam as localidades costeiras. Alfredo Marcantonio, mod presente num dos confrontos e hoje uma figura britânica no meio da publicidade, disse que: “Todos os rockers, imaginavas tu, sonhavam em trabalhar nos carrinhos de choque, a ouvir o Del Shannon. Por isso quando nós aparecemos de scooter, foi como pedir sarilhos. Mas a maioria dos mods nem sequer pensaram em ir direitos à costa para arranjar confusão. Os mods preocupam-se com as suas roupas, com perderem botões, com ficarem amarrotados ou estragarem a roupa para que pouparam dinheiro!”


Em Mods, Richard Barnes recolheu o depoimento de 2 intervenientes em Clacton que descrevem o início da confusão… sem paciência para a fila, uns começaram a emaranhar pelos pilares do pontão, outros a tentar furar a fila… e foi entre os mods que estalou a “bronca”….

Com os atropelos na fila e as discussões no pontão não tardou a que a polícia interviesse energeticamente para dispersar a multidão… e realmente a multidão dispersou! Desatou a correr sem direcção, espalhou-se pela cidade. Assustada, foi-se enfiando onde podia com receio do que parecia vir aí. É então que os locais - entre eles os rockers - reagem mal – e os confrontos se espalham pelos pubs, pela praia e pelas ruas! Mas segundo intervenientes nos acontecimentos, entre isso e o que se fez do que se passou, primeiro nos media em tempo real e depois na Quadrophenia vai uma grande distância.

Alguns protagonistas dos acontecimentos emprestaram os seus depoimentos ao docomentário “A Living Memory” da BBC.

Entre os mods, David Cooke, residente em Brighton e figura acreditada na história do movimento mod, diz que “há fotografias famosas de Brighton em que os fotógrafos pagaram qualquer coisa à rapaziada… e há algumas pessoas que sabem disso!” e Howard Baker, hoje figura do mundo da publicidade no Reino Unido, confirma a história e diz que “Repórteres e fotógrafos pagavam entre 5 a 10 libras para o pessoal encenar a cena violenta. E havia quem aceitasse!”.

Do lado dos rockers, Phil Bradley diz que os media fizeram dos acontecimentos uma coisa muito pior do que aquilo que foi. “A imprensa empolou a história. Houveram incidentes isolados, não houve batalhas como a da Quadrophenia.”

Onde todos concordam 44 anos depois é que houve violência, mas não houve armas!

“…Haviam cadeiras pelo ar, mas não haviam armas como há hoje! E ninguém foi a correr atrás de velhotas…” Phil Bradley, rocker, in Living Memory (BBC)

“Houve violência, foi feio, mas não houveram armas” Howard Baker mod, in Living Memory

Mas nos jornais, a história era diferente. Os mods, ontem vanguarda urbana, desinteressada pela rotina da vida comum, espartanos e obcecados com o estilo, adeptos de uma boa festa passaram a ser os maiores arruaceiros do Reino Unido, que saiam das suas cidades ao fim-de-semana para arranjar problemas. Pior, depois dos confrontos de Clacton, passaram a premeditar tumultos e semanas depois já devastavam Margate, e mais tarde Hastings.

Foi assim que escreveram os recém iniciados tablóides. A 30 de Março o Daily Mirror abre as hostilidades com “Gangs de scooters destroem Clacton: SELVAGENS INVADEM A COSTA – 97 DETENÇÕES”, mas é em Maio que a coisa aquece nas redacções dos jornais... Na 2ª feira, 18 a capa do Daily Mirror é “Depois de Clacton: 40 PRESOS DURANTE O DIA NOS CONFRONTOS DE MARGATE” … No dia seguinte as capas sucederam-se… No Daily Mirror “VIVER P’RÓS PONTAPÉS”, no Daily Sketch “Esfaqueamentos, apedrejamentos, batalhas de cadeiras enquanto os tumultos atingem novo pique: OS MAIS VIOLENTOS ATÉ AGORA”, no Daily Express “SAWDUST CAESERS”. Em Agosto o Daily Mirror (sempre no Daily Mirror!!) volta a fazer capa dos confrontos entre mods e rockers com “Batalha de Hastings, 18 presos: POLÍCIA DE CHOQUE VOA PARA A COSTA”! (3 Agosto ).



As fotografias mostravam de tudo… raparigas “engalfinhadas”, detenções em grupo, gente a ser arrastada por polícias, e a “virar-se” a estes, gente a saltar do paredão para a praia e multidões a correr pela praia arrastando tudo o que estava à frente… No Evening Argus escreve-se “A BATALHA DE BRIGHTON” e mais abaixo “Dois esfaqueados nas escaramuças de Margate”

Nos entretantos, e para o assunto não esmorecer, os artigos de conveniência que antes se debruçavam sobre o guarda-roupa e os cortes de cabelo, etc. passaram a dar lugar a entrevistas de rapazes e raparigas que, consciente ou inconscientemente, alimentavam um circo mediático contra si próprios. Uma rapariga de 17 anos entrevistada para o Magazine Mirror não perdeu tempo em pôr os pontos nos ís com frases como “Tens de ser mod ou rocker para significares alguma coisa”, “os mods gostam de ser vistos… e andar à porrada é uma maneira de chamar a atenção”, “Os mods querem-se ver livres dos rockers. Os rockers podem deixar o país”. Depoimentos destes são dinheiro em caixa para os recém-iniciados tablóides!

Entre as vagas de distúrbios nas cidades costeiras, a ideia dos Bank Hollidays passou a ser foco de preocupação generalizada e a questão que se colocava era: Vai acontecer outra vez. Mas depois de Clacton, onde?! A resposta veio em Maio… Clacton estava de sobre-aviso, mas as localidades escolhidas foram Brighton, Margate e Bornemouth. Pessoas de férias e repórteres concentraram-se à espera do que ia acontecer, afinal era mais barato que ir ao circo… e isso não ajudou nada ao que se viria a suceder. Demasiadas detenções, muitas vezes baseadas em suposições e não em factos. Nos tribunais as sentenças eram lidas e acompanhadas de adjectivos como bandos de ratos, vermes entre outros… e claro que os jornais voltaram a deliciar-se com o banquete! Mas não por muito mais tempo...

...Os bank hollidays perderam o encanto e a cena mod original esmoreceu… Passou-se à 2ª vaga…Swinging London, Beat, a vertiginosa ascenção dos Beatles e dos Rolling Stones entre outros.

”As rádios tocavam o que as pessoas queriam ouvir, as lojas vendiam o que o pessoal queria comprar…Dançava-se menos e falava-se sobre Amor!... E se desligasses o cérebro e te deixasses ir com a corrente também já não te aptecia dançar” Richard Barnes, in Mods


publicado originalmente n'O Modernista, por José Mourinho.

O Modernista meets Mundo Moderno



Iniciamos hoje a colaboração com a fanzine O Modernista, com a disponibilização de alguns textos escritos por José Mourinho/Driving Beat um dos Partners in Crime, dj responsável pelas noites Top Notch e LGare Goes Mod e ainda a tesoura e cola que produz o (único?) fanzine nacional dedicado à cultura mod. Para começar, Brighton Beach...